Cloé
Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Quando se vêem imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares cruzam-se por um segundo e depois desviam-se, procurando novos olhares, não se fixam.
Passa uma moça rodando uma sombrinha apoiada no ombro, e abana um pouco as ancas também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios trémulos. Passa um gigante tatuado, um homem jovem com cabelos brancos, uma anã, duas gémeas vestidas de coral. Algo corre entre eles, uma troca de olhares como linhas a ligarem uma figura à outra, desenhando setas, estrelas, triângulos, até que todas as combinações possíveis se esgotam num instante e em cena entram outras personagens, um cego com um leopardo pela trela, um cortesão com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher gordissima. Assim, entre os que por acaso procuram abrigo da chuva, sob o pórtico, se apinham sob uma tenda de bazar, ou param para ouvir a banda no coreto da praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toquem com um dedo, quase sem se olharem.
Existe uma contínua vibração de luxuria em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efémeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim.
(Calvino, fala de Lisboa em prelúdios de verão)
"O ónibus é um calhambeque e sobe a serra superlotado. Vai passageiro em pé, perdi o meu lugar na janela, meu vizinho de banco é corpulento, levo jóias nos bolsos, estou sentado em pedras, mas viajo com uma sensação de conforto. Acho que é porque chove. O asfalto espelhado, o verde retinto, árvores como roupa torcida, essa estrada é minha. Numa curva intensa para a direita, sinto o ombro do vizinho de banco pressionando o meu, e rio por dentro. Rio porque me lembro de quando íamos para o sitio de carro com os meus pais, eu e a minha irmã no banco traseiro. Curva para o meu lado, e eu jogava o meu corpo para cima dela, fazendo "ôôôôôôôô". Curva para o lado dela, e era ela que caia para cá: "ôôôôôôôô". A lembrança me bate com tanta força que chego a seguir o cheiro da cabeça da minha irmã, que ela dizia que era do cabelo, e eu dizia que era da cabeça, porque ela mudava o shampoo e o cheiro continuava o mesmo, e ela dizia que eu era criança e confundia tudo, mas eu tinha certeza que aquele cheiro era da cabeça dela, então ela me perguntava como era o cheiro, e eu perdia a graça porque não conseguia explicar um cheiro, daí ela dizia "tá vendo", mas a verdade é que nunca esqueci, já cheirei a cabeça de muitas mulheres mas nunca mais senti nada igual. Agora a curva fecha para a esquerda, e sem querer me vejo abandonando o corpo para o corpo do vizinho, quase fazendo "ôôôôôôôô". Talvez ele tenha também uma boa lembrança, talvez ele tenha tido uma irmã como a minha, com cheiro de cabeça igual a ela, e vai rir baixinho como eu ri. Acho mesmo que ele gosta da coisa, pois a curva é em S e lá vem ele descambando para cima de mim."
ainda o chico dos olhos azuis
"Quatro anos e meio vivi com essa mulher. Mas vivi de me trancar com ela, de café na cama, de telefone fora do gancho, de não dar as caras na rua. Um sorvete na esquina, no máximo uma sessão da tarde, umas compras para o jantar, e casa. Entrei nuns empregos que ela me arrumou, na segunda semana eu caía doente, e casa. No último ano foi ela que começou a trabalhar fora (...) Eu esperava por ela em casa. Habituei-me sem ela em casa, andava nu, cantava. Mudava a arrumação da sala, planejava empapelar as paredes. Já gostava mais da casa sem a minha mulher. Sozinho em casa em tinha mais espaço para pensar na minha mulher, e era nela fora de casa que eu mais pensava. Às vezes ela chegava tarde da noite e ia ao banheiro, e bulia na cozinha, e ligava a televisão sem necessidade, e isso me dava um tipo de ciúme da minha casa. Preferia não ver, e amiúde fingia estar dormindo. De manhã deixava-a acordar sozinha, abrir e fechar gavetas, ligar o chuveiro, bater vitamina e sair para o trabalho. Só então começava a minha jornada, que era andar de um lado para o outro da casa, lembrando-me da minha mulher e consertando as coisas. Um dia ela propôs a separação. Eu entendi e disse que ia continuar pensando nela do mesmo jeito, a vida inteira. Já deixar a casa foi mais difícil. Eu não saberia como me lembrar da casa. Era dentro da casa que eu gostava da casa, sem pensar."
(caramba, este rapaz anda a dar-me ganas de ser palavra, pássaro, chuva, relâmpago, galope, vulcão... )
O bosque chileno
...Sob os vulcões, à beira dos cumes nevados, entre os grandes lagos, o fragrante, o silencioso, o emaranhado bosque chileno... Afundam-se os pés na folhagem morta, estala um ramo quebradiço, os gigantescos raulíes erguem a sua encrespada estatura, um pássaro da selva fria atravessa, esvoaça, detém-se na sombra das ramarias. E depois, no seu esconderijo, canta como um oboé... Entra-me pelas narinas, até à alma, o aroma selvagem do loureiro, o aroma escuro do boldo... O cipreste das Guaitecas barra-me o passo... É um mundo vertical - uma nação de pássaros, uma multidão de folhas...Tropeço numa pedra, escavo na cavidade descoberta, uma imensa aranha de pelame vermelho observa-me com olhos fixos, imóvel, grande como um caranguejo... um cárabo dourado lança-me a sua emanação nauseabunda, enquanto desaparece como um relâmpago o seu radioso arco-íris... Atravesso de passagem um bosque de fetos muito mais altos que e - deixam-me cair na cara sessenta lágrimas dos seus verdes olhos frios e ficam atrás de mim, por muito tempo, a abanar os leques... Um tronco apodrecido - que tesouro!... Fungos negros e azuis deram-lhe orelhas, rubras plantas parasitas encheram-no de rubis, outras plantas preguiçosas emprestaram-lhe barbas; e brota, veloz, uma cobra das suas entranhas apodrecidas, qual emanação, como se ao tronco moribundo lhe fugisse a alma... Mais longe, cada árvore separou-se das suas companheiras... Perfilam-se sobre o tapete da relva secreta e cada uma das folhagens, linear, rugosa, lanceolada, nervurada, tem um estilo diferente, como que cortada por ma tesoura de movimentos infinitos... Um barranco. A água transparente desliza sobre o granito e o jaspe... Voa uma borboleta, pura como um limão, bailando entre a água e a luz... A meu lado saúdam-me com as suas cabecinhas amarelas as infinitas calceolárias... No alto, como gotas arteriais da selva mágica, arqueiam-se os copihes vermelhos... O copihue vermelho tem flor de sangue, o copihue branco tem flor de neve... Num tremor de folhas cruzou o silêncio a velocidade de um raposo, mas o silêncio é a lei destas folhagens... Apenas o grito longínquo de um animal confuso... A intersecção penetrante de um pássaro escondido... O universo vegetal apenas sussurra até que uma tempestade ponha em acção toda a música terrestre.
Quem não conhece o bosque chileno, não conhece este planeta.
Daquelas terras, daquele barro, daquele silêncio, saí eu a andar, a cantar pelo mundo...
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