Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
...A Fome e a Poesia.

Antero de Quental, Miguel Torga e Almeida Garrett gostavam de rimar. É sabido que a tal dança da esferográfica não se lhes dava através daquele esforço que faz suar, mas de uma tara herdada já dos avós Visigodos, também enunciada na seguinte lei: "Em cada português mora um poeta, ou dois...ou três."

Antero de Quental, Miguel Torga e Almeida Garrett são, agora, catamarans que se vão daqui para o Barreiro com as gentes oriundas da Margem Sul. Era por eles que esperava a bela Hospedeira, trajada com um triste boné e uma T-shirt XXL (daquelas que só sobram para trapos como dizem as avós poupadinhas). Mas, desta vez, a Hospedeira tinha companhia. A seu lado estava a velhota que oferecia o jornal grátis, com ardências de jovem editor e que ia gastando o tempo, entre marés, para se lembrar da imbecilidade da plebe, "como daquela vez em que acabou a comer biscoitos de cão a achar que eram bolachinhas gourmet"...
Ao lado destas, um daqueles tipos a vender pilhas que já não toma banho desde a Idade Media, altura em que era conhecido por qualquer coisa pouco elogiosa, do tipo "biltre" e que podia muito bem ser o coordenador da acção, tal era o manancial de ordens que lhe saia da boca. Mas, o melhor de todos, seria mesmo o bêbado remeloso e depravado, todo ele uma T-Shirt que dizia "Sex-Instructor-First-Lesson-Free" e que já não devia estar dentro de uma mulher desde a gravidez da própria mãezinha.


Bem, mas ali estava a Hospedeira, à hora mágica do Sol Nascente, para oferecer um bem de primeiríssima necessidade, um complemento saudável para o pequeno-almoço, um elixir vitaminado, enfim, o brinde mais lógico e mais desejado que só podia acompanhar um pasquim de noticias de quase-hoje e horóscopos mal previstos.....Uma lata de Chantilly!

Então, a malta desembarcava do Antero de Quental, como quem saía da Arca de Noé três anos depois da pomba trazer a verdura, e, já atrasada para repovoar a Terra com decência, levava com um Chantilly fresquinho para o caminho.... O resto da história já se adivinha. É qualquer coisa como a Hospedeira a lutar para sobreviver ao Monstro-das-mil-mãos que tenta tirar-lhe o Chantilly com uma ânsia igual à que tinha o Miguel Torga em esconder a toda a gente que se chamava mas é Adolfo.

No meio de tal epopeia não podiam faltar os originais sonetos, começados por pomposas tiradas, entre o malcriadão e a patetice: Aquela lata de Chantilly serviria então para "chegar a casa e barrar a patroa", "substituir o creme de barbear", "desenhar nas janelas enfeites de Natal", "ou fazer do bacalhau, um com natas "...

Perante tamanha parvoíce, a Hospedeira pensava nessa verve lusitana para as eloquências do espírito...e em como tais grandiosidades tinham passado longe sem tocar a alma desta carneirada que agora se entretinha a prometer grandes porradas, enquanto elevava as mães uns dos outros, a umas “não sei das quantas”.
Não podia no entanto, a pobre Hospedeira, perder muito tempo em divagações antropológicas, pois eis que se aproximava Almeida Garrett e mais 400 pessoas esfomeadas...

...e a fome não era de Poesia!

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