
"We are angels with just one wing,
And we have to embrace each other to fly..."
"If I had wings and I could fly.
I'd still walk with you"



E no meio disto cresceu Jacinto da Alfama, agora já moço com grande cabeça para o negócio e para a ciência. Foi ele quem deu a ideia de vender gato por lebre, literalmente. E, fazendo isto estabilizou a população felina do bairro e arredores e fez uns dinheiros que dormiam não por cima como ele, mas por baixo do colchão, e que o fazia sonhar com dias de sucesso e fama.
Quanto à ciência, vê-se bem que lhe saia das mãos de veterinário post-mortem, e mesmo sem saber escrevinhar mais que umas letras do nome; um J, um A um C, lá rabiscava no cadernito das contas do mês, com algumas ajudas do barbeiro (medico da altura) a anatomia dos bichos, órgãos dissecados e suas possíveis funções. Oh quantos médicos geniais se perderam por falta de educação. Jacinto teria sido um deles, com certeza.
Mas num daqueles dias que a vida apronta, Jacinto foi-se apaixonar arrebatadamente pela Rosa da Mouraria, prostituta lendária que viera imigrada de Ceuta. Rosa já tinha pelo menos 40 anos, mas trazia uma novidade e pêras. A “dança do ventre” nada tinha a ver com os bailaricos de verão, oh não, era duma ousadia que fazia cócegas no fim da nuca. Lá aparecia ela por uns poucos de reis, entre véus transparentes a dar à cinta, que um dia fora de vespa, e que agora era de elefante. Mas aos olhos do jovem Jacinto que tinha vivido toda a existência entre carnes exuberantes, aquilo tinha o sabor a fina especiaria. Foi amor à primeira vista. Mas um amor destinado ao fracasso.
Pobre Jacinto, nem mãe tivera nem mulher conhecia. Passava noites em claro indagando o mundo feminino com suas carnes finas e frágeis. Como seriam elas por dentro? Nos animais, macho e fêmea lá tinham umas diferenças, mas e nos humanos como seria? Gostava tanto de saber se Rosa era por dentro tão bela como por fora, se seu coração era de ouro, ou de seda, se seu sangue cheirava a cravo, a canela ou antes se tinha o sabor forte do caril.
Uma noite, já com mais álcool que sangue nas veias, partiu da tasca da Adelaide com o fito de ir propor à meretriz um casamento honrado. E para ajudar à cena, convidou o bairro em peso para ir testemunhar a ocasião. O povo que gostava de rixa e bordoada lá foi. Aquilo foram tantas cantorias à janela da Rosa que lhe afugentou a clientela toda. A coitada que já andava numa de promoções a ver se levantava o negócio, fartou-se. E publicamente escorraçou o Jacinto, dizendo que jamais se casaria com tal desgraçado e que o odiava, tudo isto decorado com uns quantos palavrões na língua materna.
A queda foi dura, que aquilo para um homem era demais, tentou suicídio com uma das facas do talho. Mas à última da hora, o Zé interveio e não o deixou fazer tal coisa. Não! Ele valia mais que isso. Ele podia ser alguém nesta vida, caramba. E foi então que o Zé do Talho se encheu de orgulho paternal e depositou no miúdo as economias de uma vida de talhante, e mandou-o emigrar para um sítio qualquer.
E lá foi o Jacinto com a sua malita de ofício, no primeiro navio que encontrou na doca, e só voltou a por os pés numa terra chamada Inglaterra, onde foi viver para um bairro escuro e sujo e arranjou emprego como talhante. A vida não era tão diferente como a de cá, mas Jacinto já não era o mesmo rapaz. Aquele amor infeliz tinha o transtornado, e ficou obcecado pela morfologia interna das mulheres. Queria saber tudo, mas não sabia como.
Uma noite andando por uma viela, meu Deus, ou como se dizia lá na terra, My God, viu um cadáver, sim, era uma mulher morta. Tinha um corte profundo no pescoço. Olhos esgazeados e boca aberta. Jacinto ficou algum tempo a olhar para ela. Devia ser uma prostituta para estar na rua aquela hora da noite.
Foi então que uma ideia lhe passou no espírito e passou uma noite de pura ciência experimental. Passado um mês já sabia tanto sobre mulheres como o maior conquistador. Enquanto isso, os jornais ingleses vendiam aos milhares a notícia do primeiro serial killer. Os nossos ilustres portugueses discutiam nas soirés tal fenómeno moderno, as damas davam gritinhos excitados nos camarotes do teatro, Vá agora é a menina o assassino, assuste-me. Ah, o crime podia ser chique afinal!
Quanto ao Jacinto bem, lá continuava talhante durante o dia, mas enchia-se de cuidado para não esbarrar com tal monstro assassino. Um dia, quando autopsiava mais uma pobre desgraçada que tinha ido deste bairro para outro mais etéreo. Ouviu as sirenes da polícia, Meu Deus. Pensou. Deve ser o assassino, deve andar por perto. Tenho que me esconder. E tão depressa fugiu que se esqueceu da malita com as facas do talho.
No dia seguinte, os jornais saíam furiosos, gritando que acabava de ser encontrada a 5 vitima, o assassino tinha agora um nome próprio, que encontraram na sua mala ao pé do cadáver.
JAC “o estripador”

Em Alfama, as noticias acabaram por chegar, e o Zé do talho deixava escapar sempre uma lagrimazinha de orgulho, quando dizia a quem queria ouvir, que o filho, emigrante em Inglaterra, era tão bom talhante que até já tinha saído nos jornais.
FIM (2005)





Partilharam isto comigo, partilho com quem quiser...



De reparar nos arcos em ógiva, vitrais, retábulos com o ciclo Mariano, e a rosácea =catedral gótica ou a arquitectura da luz! Muito criacionista!


Provocação....
O Intelecto Como Exagero
"A beleza, a verdadeira beleza, acaba onde a a expressão intelectual começa. O intelecto é já uma forma de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos só nariz, ou só testa, ou uma coisa horrível do género. Olha para os homens bem sucedidos em qualquer das profissões eruditas. Como são perfeitamente hediondos! A não ser, evidentemente, na Igreja. Mas a verdade é que na Igreja eles não pensam. Um bispo continua a dizer aos oitenta anos o que lhe mandaram dizer quando era um rapaz de dezoito e, por conseguinte, parece sempre perfeitamente encantador."
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'
Uma mancha é uma cicatriz na memória que se obstina em demarcar o incomensurável território do esquecimento. O esquecimento, sei-o agora, não é um buraco na memória, não é a negação de um facto, nem das espectativas da nossa infância ou das nossas ficções de juventude. Esquecer é nivelar a intensidade de tudo aquilo que surge na memória, de modo imprevisto ou propositado, colocando-o como uma armadilha que nos precipita na fantasia esquecendo o viver.
De mancha a mancha, de gesto a gesto, reconstitui-se o que tantas vezes é considerado uma singularidade, e que a vida, uma e outra vez, nos confirma como simples banalidade.


Farto dos mesmos mp3!
Toma lá uma horita de musica do relax do Chee Shimizu - Breathing Cosmos (áudio) é só carregar no link e ficar zen!
Se gostares amanhã há mais!
Museu do Chiado!
Entrada Livre das 16h às 19h
Retrato Mosaico Online
"If a picture is worth a thousand words an image mosaic is worth a billion words!"
Faz a tua!!
http://www.adelaider.com/image-mosaic/