Um Casaco de Raposa Vermelha 2/5
Recuou, assustada, ouvindo a resposta. Custava muito mais do que pensara, cinco vezes mais do que o dinheiro que teria disponivel.
-Mas podemos facilitar o pagamento, disse a vendedeira, compreensiva.
Talvez sacrificando as férias, pensou. Ou desviando algum dinheiro do emprestimo do carro. Aquecendo menos o quarto, fazendo refeições mais ligeiras. Convinha-lhe, até, porque estava a engordar um pouco.
-Aceito, disse fazendo rapidamente contas de cabeça. Dou-lhe o sinal e começo a pagar na próxima semana. Mas desde já ele é meu.
-De acordo, disse a vendedeira espetando-lhe uma etiqueta "vendido". Pode levá-lo quando efectuar a terceira prestação.
Passou a vir à noite, quando a loja estava fechada e ninguém a via, olhava através do vidro e de cada vez se alegrava - de cada vez mais brilhante, mais cor de fogo, labaredas vermelhas que não queimavam, antes eram macias sobre o corpo, uma pele espessa, ampla, envolvente, balançando com o seu andar.
Seria admirada, também ela, seguida com os olhos quando passasse - mas não era isso que a fazia sorrir secretamente, era antes uma satisfação interior, uma certeza obscura, uma sensação de harmonia consigo própria, que extravasava em pequenos nadas, deu conta. Como se o ritmo da espiração mudasse, fosse mais repousado e profundo.
Por outro lado, talvez porque deixara de sentir-se cansada, deu conta que se movia agora muito mais depressa que habitualmente, caminhava sem esforço pelo menos com o dobro da velocidade normal. As pernas ágeis, os pés ligeiros. Toda mais leve, rápida, com movimentos fáceis do dorso, dos ombros, dos membros....

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