Um Casaco de Raposa Vermelha 3/5
É por causa da ginástica, pensou, por alguma razão começara a fazer regularmente exercício. Havia meses já que conseguia correr duas horas por semana no campo de treino. Mas gostava sobertudo de correr na orla da floresta, à saída da cidade, sentindo a areia a estalar debaixo dos pés, aprendendo a colocar os pés no chão de outra maneira. O contacto perfeito, íntimo, directo, com a terra. Sentir profundamente o corpo - estva mais viva, agora, mais alerta.
A sua capacidade de percepção crescia, notou, mesmo à distancia ouvia ruídos diminutos, que antes lhe passariam despercebidos, uma sardanisca fugindo no chão entre as folhas, um rato invisível fazendo estalar um ramo, uma bolota caindo, um pássaro pousando entre as ervas; pressentia também, muito antes de elas terem lugar, as mudanças atmosféricas, o virar do vento, o subir da húmidade, o avolumar-se no ar da tensão que descarregaria em chuva.
E os cheiros, um mundo de cheiros, sentiu, como uma dimensão ignorada das coisas a que agora se tornara sensível, poderia descobrir caminhos, trilhos, pelo olfacto, era estranho como nunca tinha dado conta como todas as coisas cheiravam, a terra, a cascas das árvores, as ervas, as folhas, e também cada animal se destinguia pelo seu odor peculiar, cheiros que vinham no ar desdobrados em ondas, em leque, e ela junatava-os ou separava-os, aspirando o vento, levantando imperceptivamente a cabeça.
Interessava-se de repente por animais, dava consigo a desfolhar enciclopédias, a olhar imagens - o ouriço-cacheiro com uma cor mole, tenra, clara, na parte de dentro do corpo onde não havia espinhos, a lebre rápida, em tons indecisos, saltando, fascinava-a o corpo dos pássaros que analisava com minúcia, calculando como era suave, para lá das penas e uma palavra lhe ficava por vezes boiando insistentemente na memória: predador...

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