Um Casaco de Raposa Vermelha 4/5
Tinha mais fome, agora, sentiu arrumando os livros e abrindo a porta da cozinha, e isso desagradava-lhe profundamente, admitia que era a contrapartida negativa do exercicio fisico e procurava um modo de contornar o perigo de engordar, vagueava, insatisfeita, em torno das pastelarias, sem atinar o que procurava, porque o próprio cheiro do café era repugnante e a enjoava, tinha fome de outras coisas, não saberia dizer exactamente o quê, fruta, talvez, poderia aproveitar para emagrecer um pouco, comprou uma enorme quantidade de uvas e maçãs e comeu-as todas no mesmo dia, mas continuou a sentir fome, uma fome oculta, que a roía por dentro e não parava.
Um inesperado convite para uma festa alegrou-a, sentiu que qualquer derivativo seria bem vindo para esquecer aquela fome absurda, vestiu-se com prazer e pintou a boca e as unhas de escarlate - tão compridas,as unhas, reparou, e as próprias maõs pareciam mais sensiveis, alongadas, quem ela acariciasse na festa ficaria eternamente em seu poder, pensou, e sorriu no espelho- um sorriso felino, viu, pondo os olhos em fenda e sorrindo mais, deixando o sorriso escorrer pelo rosto e dando-lhe aos traços uma certa orientação triangular que lhe agradou e sublinhou ainda mais com maquilhagem.
A meio da festa reparou numa peça de carne a ser partida, meio em sangue - rosbife, lembrou-se, mas essa palavra não fazia de repente qualquer sentido, estendeu a mão e engoliu uma fatia- o gosto da carne, quase crua, o gesto de cravar os dentes, de fazer saltar o sangue, o sabor do sangue na lingua, na boca, a inocência de devorar a peça inteira, pensou tirando outra fatia e sentindo que estender a mão já era um desvio inutil, deveria estender directamente a boca.
Desatou a rir e começou a dançar, com as mãos oscilando no ar, manchadas de sangue, sentindo subir o seu próprio sangue, como se uma tempestuosa força interior de desencadea-se, uma força maligna que poderia transmitir aos outros, uma peste ou uma maldição, mas essa ideia era suave, tranquila, quase alegre, sentiu flutuando, ligeiramente embriagada, e escutando o eco do seu próprio riso.
Passaria a noite obedecendo a todas as formas que dentro de ela se soltassem, e de manhã iria buscar o casaco....

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