Um Casaco de Raposa Vermelha 5/5

...e de manhã iria buscar o casaco, porque era o dia marcado e ele era seu, fazia parte dela, conhecê-lo-ia mesmo de olhos fechados, pelo tacto, a pele macia, espessa, ardendo sobre a sua, ajustada perfeitamente, a ponto de não se destinguir dela-
-Feito para si, disse de novo a vendedeira triando-o da cruzeta.
A pele ajustada à sua, a ponto de não se distinguir dela, viu no espelho levantando a gola em volta da cabeça, o rosto desfeito, de repente emagrecido, desmesuradamente alongado pela maquilhagem, os olhos em fenda, ardendo sem sono.
-Então bom dia e obrigada, disse saindo à pressa, receando que o tempo que lhe restava se esgotasse e as pessoas alarmadas parassem a olhá-la, porque de repente era demasiado forte o impulso de pôr as mãos no chão e começar a correr à desfilada, reencarnando o seu corpo, reencontrando o seu corpo de animal e fugindo,
E assim foi com esforço quase sobre-humano que conseguiu entrar no carro e rodar até à orla da floresta, segurando o seu corpo, segurando ainda um minuto mais o seu corpo trémulo - antes do bater da porta e do verdadeiro salto sobre as patas livres, sacudindo o dorso e a cauda, farejando o ar, o chão, o vento, uivando de prazer e de alegria e desaparecendo, embrenhando-se rapidamente na profundidade da floresta.

the end


Um comentário:

Anônimo disse...

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