Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
.....Desculpas esfarrapadas

- Olhe, a verdade é que amanhã tenho um casamento e só me lembrei hoje. Não, não, isto não tem nada a ver com o facto de eu me ter comprometido a ter que me vestir de hipopótamo para animar uma acção de hipermercado e ter posto a mão na consciência à última da hora....Olhe, pois, acontece, se precisar mando uma mensagem a amigas minhas giras-altas-loiras-de-olhos-azuis-que-não-se-vão-ver-porque-vão-estar-transvestidas-de-paquiderme-mas-a-fingir-que sim. Ok. Obrigada. Desculpe sim. Adeus. Adeus.

A hospedeira faz uma cruz na agenda, na coluna das "Desculpas Esfarrapadas", à frente da desculpa “Casamentos de última da hora” e escreve o nome da agência (não vá ela repetir desculpas com a mesma agencia como quem repete vestidos em casamentos dos mesmo grupo de amigos).

Claro que o nome "Desculpa Esfarrapada" foi exactamente criado a pensar na pobre hospedeira, que se não se desculpar inventivamente, acaba ela por ficar em farrapos, numa qualquer acção ridícula.

E também é claro que as agencias estão carecas de saber que é tudo inventado, tal como o professor da primária advinha sem dificuldade que o trabalho de casa não foi comido pelo cãozito lá da rua. Mas ele há hipocrisias nesta vida que devem ser mantidas à laia de rituais e nisso a vida de hospedeira é um Carnaval de subjectividades.

O que já aconteceu à hospedeira, desde que trabalha a recibos verdes, raia um aberrante caso de mau olhado crónico. É que não são só as bodas, cerimónias de circuncisão, baptismos, bar mitzvas, que são marcadas de véspera. Não. Há também todo o tipo de pequenos acidentes caseiros e (para as mais desperadas) casos do paranormal que a impedem de picar o ponto.

Como as gripes e constipações já não resultam à uma pancada de anos (hmm e agora com a Gripe A talvez ainda haja esperança) e como de resto também não convém ter nada demasiado infecto contagioso (sob pena de não voltar a ser chamada para trabalhos melhores) ficamos reduzidas a doenças súbitas e passageiras. Só a hospedeira se pode dar ao luxo de ter mais apêndices para tirar que o número ferraduras do burrinho da manjedoura, sem falar nos cisos que vêm sempre em numero primo. Muito comum são também as alergias de pele, conjuntivites e ataques de asma. Mas a efeméride mais recorrente não podia deixar de ser a boa da gastroentrite, o que não é de estranhar, pois a pobrezinha oscila entre os restos dos serviços de catering e jejuns hebraicos, pelo que ninguém estranha e menos dúvida da possibilidade de uns dias a vomitar a alma.

Tudo está resolvido desta vez, a hospedeira sorri cheia de saúde. Mas eis não quando o telefone toca...

-Oh hospedeira que pena, deixe lá, as melhoras. E não se preocupe, que a acção teve que ser adiada uma semana e assim, quando já estiver melhorzinha, vai poder fazer o trabalho. Eu sei, imagine, que sorte, parece que foi de propósito. Adeus, adeus.

A hospedeira desliga o telefone com um ar desorientado, olha para a agenda e vê que já não tem mais desculpas para dar àquela agencia, por segundos imagina-se a aturar criancinhas diabéticas, durante 8 horas, vestida de rena… Não consegue evitar, a náusea chega-lhe mais rápido que ao Sartre, corre rápido e chega a tempo para vomitar os croquetes de caril que abocanhou, à rebeldia, na "tenda vip" da ExpoEmigrante, um pouco por toda a casa de banho.

"Aiiiiii", diz a desgraçada, "desculpem lá esta!"

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