Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
....Dos Sorrisos

-Olá hospedeira –diz o parolo, que se vem chegando, com um sorriso de quem acha que ninguém topa que a potência do carro dele é inversamente proporcional à micro-virilidade que lhe mora no jeanzinho apertado da Sacoor.

-Bom dia – aflora a hospedeira com uma expressão neutra, tentando fingir que não sabe que conversa é que aí vem.

-Oh - diz o palerma a fazer beicinho -não está a sorrir? Está chateada?

-Não – é a palavra objectivamente mais cortês que a hospedeira encontra.

-E não sabe que tem que sorrir? E ser simpática. É para isso que lhe pagam. Vá, sorria – insiste o espécimen, dando o exemplo – Olhe que eu vou dizer ao seu patrão.

-Ah sim? – exclama a hospedeira, levantando o sobrolho e dando um passo em frente, ao desafio – E vai dizer especificamente o quê? Que é uma amostra de homenzinho que ainda vive com a mamã para poder passar os fins-de-semana a lavar a porcheta que tem lá fora, que nem lhe chega para sacar gajas estrábicas em boates, porque no fundo, no fundo é um panasca recalcado que sonha em ser possuído pelo vendedor da Remax lá da praceta dos subúrbios onde vive? É isso que vai dizer? Meta-se daqui para fora antes que eu chame o Carlão, o nosso segurança, para lhe dar o excerto de pancada que anda a precisar desde que o paizinho lhe fugiu com a secretária.

-Oh, peço desculpa – diz o indivíduo e sai às arrecuas.

A hospedeira sorri por segundos a imaginar a cena. É claro que isto jamais aconteceria no mundo real. A hospedeira despreza o género humanóide, mas a desgraçada sabe que o cliente tem sempre razão e é por isso que acaba por sorrir levemente e dizer.

- Já vi que está interessado no Ferrari Spider, vou passar os próximos dez minutos a debitar-lhe informação tão técnica que vai achar que sou astronauta, vou fazê-lo assinar o test drive e depois vou convencer o vendedor aqui do stand que você já está praticamente de cheque passado.

Com efeito, passada uma meia hora, o pilantra atrevido já não sabe o que há de dizer para se descartar do vendedor. Tudo o que ele queria era meter-se com a miúda, mas a hospedeira tem manha e sabe de quantas maneira de assa um porco. Quando finalmente o palerma consegue fugir-lhe do stand, depois de muita humilhação, a hospedeira sim...está a sorrir.

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