Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
...O Ópio do Povo

Marx alinhavou-o de uma maneira sonante mas estava francamente equivocado. Não é a religião, que o povo fuma fervorosamente, que o escraviza. Não são os padres e os frades que tiranizam a plebe, ó não, não. É o brinde.

O Brinde!
O brinde dava um tratado de sociologia, mas um tratado de sociologia jamais daria um brinde, pois o brinde define-se exactamente pela inutilidade que tem, e quanto mais fútil, colorido e grande for, maior o seu poder de sedução.

O brinde é um Scooby-snack que serve meramente para presentear a existência dos mortais. O brinde diz ao indivíduo “sim, a tua vida é merdosa, mas alguém se lembrou de ti, sim, só de ti, das tuas necessidades, das tuas ambições e sonhos, da tua singular e brava viagem pós-caverna-platónica e é por isso que, embora aches que erras por um caótico e ilógico Universo, estás enganado, Nós sabemos o que tu queres e aqui está, toma lá um……. crachá!

O brinde move multidões. Se Moisés tivesse brindes na altura, os hebreus tinham se marimbando para o Maná. Aliás, há quem defenda que o Maná era exactamente o brinde dessa épica maratona. Fosse ou não, uma coisa é certa, se querem a adesão de massas acéfalas a uma marca, há que dar brinde.

A hospedeira existe, invariavelmente para ser a dadora do brinde. E não nos podemos queixar por aí além pois ao menos estamos a exercer o verbo Dar, geralmente mais fácil que o verbo Impingir.

Pois, como dizia, a hospedeira dá o brinde, e o povo recebe. O que parece uma tarefa fácil e gratificante depressa se torna no pior dos infernos. Pois o povo chega a gostar mais de brindes do que do Tom Hanks nos anos 90! E, em poucos segundos, o povo, esse rebanho de macacos amestrados, passa de gremlin bom a gremlin mau!
Há um qualquer fenómeno que muda radicalmente a natureza da pessoa que quer receber de graça um porta-chaves, quando percebe (e percebem logo) que se forem trafulhas podem receber muitos porta-chaves! Claro que o facto do porta-chaves em questão ser um objecto tão horroroso que parece produto excedente de um workshop de artesanato da prisão de Guantanamo, não interessa nada. A única coisa que interessa é que é GRATIS. Ou como a hospedeira tão correctamente anuncia em voz alta, GRATES.

É óbvio que não há almoços grátis neste mundo, mas posso garantir-vos que em compensação existem xanatos, pipocas, ligas de renda, bolas de stress, esferográficas, bloquinhos, rebuçados, chupa-chupas, sticks luminosos, crachás, fitas para chaves, cartões de telemóvel, bebidas, bolachas, preservativos, pulseiras, chapéus de sol, t-shirts, borrifadores, sofás insufláveis e muito muito mais, o céu do marketing é o limite. Claro que, como qualquer produto feito em larga escala, o brinde tem sempre uma qualidade tão boa, que se consegue estragar mesmo sem ninguém lhe tocar, o que também não tem problema nenhum, visto que ninguém recebe só um!

Já vi gente à pancada por brindes, já me prometeram porrada por brindes, já me prometeram outras coisas também, já me puxaram pelo braço, me espetaram o dedinho no ombro, já fugi a correr, já me chamaram ordinarices e já me ofereceram couves. O problema é que o povão tem uma fome voraz das coisas que não são de ninguém e não param até consumirem tudo e, se há uma hospedeira desgraçada pelo meio, tanto pior.


E é assim que a hospedeira se vê a passar de rainha a condenada, de Deus a mortal, de leão a cordeiro, pois se o primeiro brinde é um presente, todos os outros, depois desse, são uma obrigação, e para aguentar a fúria de multidões que tais, só com muito ópio em cima!

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