Ofereceram-me o CD d'As Mais Bonitas, do Vitorino. Decorei duas músicas inteiras, eram do Lobo Antunes. Ainda as sei de cor. Tinha 10 anos! Aqui estão:

Tango Do Marido Infiel Numa Pensão Do Beato

Sem tempo para ter tempo. De ter tempo de te dar. O tempo que tu mereces. Prazeres em que tu morresses. Manhãs que não amanheces. E arrepios que estremeces. Na boca de te beijar. Fico sentado no quarto. Desta cama de pensão. Ausente, despido farto. Cansado dessas mulheres. Que ouvem sem me escutar. Que em olham sem me ver. Que me amam sem saber. Que me roçam sem tocar. Que me abraçam sem paixão. Que ignoram que eu anoiteço. Que em ensombro que escureço. Que em enrugo e envelheço. Me pregueio e apodreço. E a quem pago o que me dão: Uma espécie de ternura. Uma imitação do amor. Lençóis que são sepultura. De carícias sem doçura. E dos meus lábios sem cor. Ai dedos no meu cabelo. Quero a minha raiva toda. Quero domá-la e vencê-la. Quero vivê-la ao meu modo. Até encontrar por fim. Aquela voz de menino. Há tantos anos perdida. Há tanto tempo esquecida. Em soluços dissolvida. A gritar dentro de mim. A gritar dentro de mim. A gritar dentro de mim.

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo. Por tudo e por nada. Deixei-te parada. Na berma da estrada. Usei o teu corpo. Paguei o teu preço. Esqueci o teu nome. Limpei-me com o lenço. Olhei-te a cintura. De pé no alcatrão. Levantei-te as saias. Deitei-te no banco. Num bosque de faias. De mala na mão. Nem sequer falaste. Nem sequer beijaste. Nem sequer gemeste,Mordeste, abraçaste. Quinhentos escudos. Foi o que disseste. Tinhas quinze anos. Dezasseis, dezassete Cheiravas a mato. À sopa dos pobres. A infância sem quarto. A suor, a chiclete. Saíste do carro. Alisando a blusa. Espiei da janela. Rosto de aguarela. Coxa em semifusa. Soltei o travão. Voltei para casa. De chaves na mão. Sobrancelha em asa. Disse: fiz serão. Ao filho e à mulher. Repeti a fruta. Acabei a ceia. Larguei o talher. Estendi-me na cama. De ouvido à escuta. E perna cruzada. Que de olhos em chama. Só tinha na ideia. Teu corpo parado. Na berma da estrada. Eu que me comovo. Por tudo e por nada

Um comentário:

O Meu Outro Eu Está a Dançar disse...

ó
afinal os homens...