Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
...A Virgindade

Vê-se logo quando a hospedeira é virgem. E não é por entrar no stand, vestida de branco de véu e grinalda.
Geralmente, é a única desgraçada que está devidamente calada e que faz tudo o que mandam com um rigor soviético. Põe-se muito tesa a um canto, com as mãozitas dadas pela barriga ou atrás das costas, fala com uma vozinha doce-de-morango ao povo, tem uma necessidade de realizar desejos à agência que até mete nojo ao próprio génio do Aladino e consegue (num excitante exercício apenas observado em algumas espécies de habitats desérticos) passar 10 horas sem satisfazer qualquer necessidade fisiológica, seja parar para beber água, comer qualquer coisa ou ir à casa de banho. Nunca precisa de descansar.
Como é a sua primeira vez, está tão orgulhosa do seu profissionalismo que espera que toda a gente bata palmas à sua capacidade andróide de aguentar o impossível. Em suma: A hospedeira virgem é uma imbecil. Está a ser explorada por si própria.

Quando vejo uma destas maçaricas ponho-me logo a abanar a cabeça qual mestre Yoda. Chego-me à moça e prometo-lhe logo um arraial de pancadaria se ela continuar armada em estúpida. Isto porque a desgraçada-junior não percebe que está a furar uma greve constante. Uma luta social com barbas marxistas que tenta fazer valer os direitos das hospedeiras-proletárias no geral e dos mamíferos bípedes em particular.

Por outro lado, vê-se logo quando uma hospedeira é rodada que nem maçaneta de casa de banho pública. Ostenta sempre um ar de quem já sabe quanto é que a casa gasta (o que se vê pelo fácil franzir de sobrolho), está sempre à rasquinha para ir à casa de banho porque, para além do obvio, sempre dá para estar sentada e lançar umas fumaças, consegue forjar um sorriso amarelo com a mesma rapidez com que disfarça o hálito a caril das chamuças roubadas no catering e sabe falar por olhares, nomeadamente dizer “olha me só o vestido desta bimba”, “se o fotografo me tira mais uma foto vou-lhe aos dentes e às lentes” e “é a última vez que me apanham num Congresso Internacional de Fígados”.

Aproximemos a lupa sociológica, pois as diferenças continuam…


Enquanto a hospedeira virgem compra collans a 5€ que lhe duram umas horas, a hospedeira veterana sabe que a melhor marca é aquela das risquinhas azul e branca que se compra nos chineses, “cor-Vison” porque lhe dão um bronze à Caraíbas e custam menos que um bilhete de metro. A h.virgem farta-se de dar graxa à agência, a h.veterana já nem engraxa os sapatos, prefere levar as sabrinas para poupar nas varizes. A h.virgem conta a vida toda às colegas, a h.veterana já sabe perfeitamente que a Ana Cláudia é uma vaca intriguista, a Jessica é uma vadia-rouba-namorados e a cabra da Vanessa faz queixinhas ao patrão. A h.virgem vai comprar lingerie sem costuras especialmente para o trabalho, a h.veterana prefere costurar lingerie só para poupar uns cobres. A h.virgem diz “não, não quero um croquetinho, não se preocupe”, a h.veterana sabe as especialidades de cada catering e o nome dos empregados de cor “Ó Zé Martins, faz-me aí um tupperware com aqueles pastelinhos de carne, boa?”.

Concluindo, se a hospedeira virgem ainda não provou do fruto do bem e do mal, a veterana comeu o pomar todo e ficou com fome. O que vale é que só se é virgem uma vez…
Pronto, já lixei mais uns collans.

Um comentário:

Toeodora Rose disse...

adorei! aahaha vou seguir