"O ónibus é um calhambeque e sobe a serra superlotado. Vai passageiro em pé, perdi o meu lugar na janela, meu vizinho de banco é corpulento, levo jóias nos bolsos, estou sentado em pedras, mas viajo com uma sensação de conforto. Acho que é porque chove. O asfalto espelhado, o verde retinto, árvores como roupa torcida, essa estrada é minha. Numa curva intensa para a direita, sinto o ombro do vizinho de banco pressionando o meu, e rio por dentro. Rio porque me lembro de quando íamos para o sitio de carro com os meus pais, eu e a minha irmã no banco traseiro. Curva para o meu lado, e eu jogava o meu corpo para cima dela, fazendo "ôôôôôôôô". Curva para o lado dela, e era ela que caia para cá: "ôôôôôôôô". A lembrança me bate com tanta força que chego a seguir o cheiro da cabeça da minha irmã, que ela dizia que era do cabelo, e eu dizia que era da cabeça, porque ela mudava o shampoo e o cheiro continuava o mesmo, e ela dizia que eu era criança e confundia tudo, mas eu tinha certeza que aquele cheiro era da cabeça dela, então ela me perguntava como era o cheiro, e eu perdia a graça porque não conseguia explicar um cheiro, daí ela dizia "tá vendo", mas a verdade é que nunca esqueci, já cheirei a cabeça de muitas mulheres mas nunca mais senti nada igual. Agora a curva fecha para a esquerda, e sem querer me vejo abandonando o corpo para o corpo do vizinho, quase fazendo "ôôôôôôôô". Talvez ele tenha também uma boa lembrança, talvez ele tenha tido uma irmã como a minha, com cheiro de cabeça igual a ela, e vai rir baixinho como eu ri. Acho mesmo que ele gosta da coisa, pois a curva é em S e lá vem ele descambando para cima de mim."

ainda o chico dos olhos azuis

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