Crónicas de uma Hospedeira Explorada apresenta...
Entre Chulos e Clientes

O tema de hoje é já-quase-nada tabu. Mas ainda assim, é por demais evidente as analogías que podem ser feitas entre uma hospedeira e uma mulher da vida, vulgo, pêga!

A única coisa que realmente as distingue é a mais importante. Mas excluindo o pequeno factor S, também a desgraçada e engraçada hospedeira se encontra entre o chulo e o cliente.

O alegre proxeneta, no nosso caso, são as infalíveis agências promotoras de eventos. A biblica missão destas é: extorquir o maior capital possivel ao cliente dando o menos possivel à hospedeira. Como qualquer chulo que se preze.

Por seu lado, o cliente é o cliente, nem houve a pressa de lhe mudar o nome. O cliente geralmente vem com um "O" atrás, maior ou menor conforme o dinheiro que está a perder na bela e inutil acção de marketing. Normalmente quando o chulo fala do cliente, abre muito os olhos, do genero: "o" cliente vem aí" ou "vai lá estar "o" cliente"! E a hospedeira fica ligeiramente apreensiva com o tamanho do "O" do cliente.

Ainda assim, uma hospedeira não se pode dar ao luxo de ser Freelancer. O perverso mercado obriga à chulisse! A questão é tão antiga como o mundo: Já imaginam a prostituta das cavernas-prostitutis-mulheris bem à Flinstone, na esquina da gruta abanando o pernil. O problema é que esta profissional rápido se apercebe que vai ter que dar uma cota parte da comida pré-histórica que recebe ao homo-chulus, em troca de contactos. Por seu lado o homo-chulus não faz mais nada da vida do que falar, aos amigos casados, da bela moça que tem por conta.

Passados milhões de anos, a salganhada mantém-se. Ilustremos.

A marca X de bebidas alcoolicas (o cliente) quer vender mais. Dá-se uma brilhante reunião no departamento de marketing e um dos otários em brainstorming (actividade verdadeiramente perigosa onde a estupidez se consegue multiplicar pelo numero de idiotas intervenientes), tem a infeliz ideia, que "giro, giro, eram três gajas boas a fazer de astronauta, em lingerie, bem no meio no carrefour de chelas, ao pé da zona dos congelados." Os outros ótarios seniors batem palmas cheios de gáudio porque não só a ideia é completamente absurda como é o sonho cor de rosa do surreal mundo masculino. Gajas Nuas!

Num segundo passo, faz se uma meeting com a agência de promoção escolhida (o chulo). Mascara-se a ordinareca ideia com palavras inglesas sustentadas pelo Latest Dictionary of Marketing ou Branding pra tótós e passa-se à escolha da mercadoria.

O que se dá de seguida é praticamente similar a uma feira de gado texano.

-Ora faxavor eu queria uma loira, uma morena e uma ruiva, com 1,80 e bem mamalhudas.
-Temos aqui estas seis dentro desses parâmetros. Ruivas é mais difícil mas existe a Karina que não é muito avantajada mas mete-se-lhe uns apliques e fica logo qual Gina Lolobrigida.
Também temos a Tatiana que só tem 1,50 mas tem um rabiosque tão-à-preta que ninguém vai perceber que tem a altura do Noddy.

Depois de mais umas conversações à volta da caderneta dos cromos, "o" cliente lá escolhe as meninas que o chulo tão bem vendeu.

É nesta altura que a hospedeira, que se encontra envolta em brilhantes questões do mundo académico, recebe "O" telefonema.

-Alô hospedeira, tá boa? Olhe está disponível dia 9,1o,11,12 de Dezembro, das 9 da manhã às 23h?
(A hospedeira até espuma sobre os apontamentos. Odeia a pergunta, pois o chulo omite o que realmente interessa, o dinheiro e a função a desempenhar, e daí responde meio a medo)
-Em principio.... mas... o que é que é para fazer?
-Ahhhh não custa nada! É só dar uns folhetos. Nada de especial! E vai ganhar bem, einn, 400€!
(A hospedeira noviça rápido se deixa convencer pela dinheirama tão fácil e rápida)
-Combinado, ahhh e a farda como é?
-Oh, ainda não sei (mente) mas acho que vai ser divertidissima (sinónimo para ultrajante). Beijinhos e até breve.

Será só um dia antes da acção que a hospedeira será briefada (de briefing= quantidade de horas inúteis passadas num escritório longe de casa para ser formada sobre questões que se apreendem em 10 minutos e experimentação da "farda") e chegará à conclusão, infelizmente tardia, que sim, irá entregar folhetos, mas que estará por 4 infernais dias, praticamente nua, na secção dos congelados, em pleno supermercado, e de capacete de astronauta. Iuri Gargarin versão eróticó-alcoolica.

E de repente, uma mulher diplomada que jamais faria certas figuras apanha-se, à conta de uns cobres, neste estado!

Dia da acção, e eis que chega "O" cliente, de porte majestoso por entre as prateleiras do super e, constata se de facto, tantos anos do curso inferior de marketing valeram mesmo a pena....É que há 600 mitras em cima das meninas-cosmonautas-azuis-de-tanto-frio-a-desmaiar-de-fome-e-a-taparem-se-com-os-folhetos, e nem uma garrafa vendida!!!!!

-Estranho- diz o génio- e depois de muito ponderar no paradoxo "porque é que gajas astronautas não sobem as vendas?"
conclui, com toda a pujança - "Tirem o soutien"

2 comentários:

Philete disse...

optima escrita de descricao

Anônimo disse...

O teu sarcasmo é qualquer coisa!
Tens de continuar a escrever crónicas, estão geniais!!

Marie